17/10/2003
Reuters
PUTRAJAYA, Malásia (Reuters) - A Austrália uniu-se à União Européia na sexta-feira na condenação aos comentários sobre os judeus feitos pelo polêmico primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, em uma cúpula de líderes islâmicos.
O primeiro-ministro australiano, John Howard, qualificou os comentários de "ofensivos" e "perigosos". A Itália, que ocupa neste semestre a presidência da União Européia, disse que vai propor uma condenação formal a Mahathir durante a cúpula do grupo, que termina na sexta-feira.
"O Islã nunca defendeu ser contra ninguém, incluindo os judeus", afirmou o chanceler Syed Hamid Albar a jornalistas em Putrajaya, onde ocorre a cúpula islâmica.
"O único problema com os judeus é quando o Estado de Israel foi criado", afirmou Syed Hamid, acrescentando que há judeus trabalhando e vivendo em harmonia na Malásia.
Mahathir, que no dia 31 deixa o governo, após 22 anos de poder, disse na quinta-feira que os muçulmanos deveriam usar o cérebro em vez da força para derrotar Israel. Ele acusou os judeus de serem cada vez mais arrogantes e disse que isso deve ser aproveitado para promover a causa dos povos muçulmanos no mundo.
"Os europeus mataram 6 milhões dos 12 milhões de judeus. Mas hoje os judeus governam o mundo por procuração", afirmou.
O premiê australiano disse que Mahathir é conhecido por seus comentários inflamados, inclusive contra a Austrália, mas deu a entender que desta vez ele passou dos limites.
"É ofensivo", afirmou Howard a uma rádio de Melbourne. "Qualquer insinuação de dividir o mundo entre judeus e muçulmanos é perigosa ..., historicamente indefensável e errado. É algo que todos os australianos, ou a maioria dos australianos, considerariam bem repugnante."
ANTI-SEMITISMO
Em nome da Europa, a Itália disse que os comentários de Mahathir são fortemente anti-semitas. "O primeiro-ministro da Malásia usou expressões gravemente ofensivas não só contra os judeus, mas também palavras que vão contra os princípios da tolerância e do diálogo entre Ocidente e mundo islâmico", disse o chanceler Franco Frattini em entrevista coletiva.
Líderes árabes, por sua vez, disseram que Mahathir estava apenas dizendo a verdade. "Não acho que os comentários sejam anti-semitas de forma alguma. Acho que ele estava colocando os fatos, que são basicamente um desafio para o mundo muçulmano", afirmou o chanceler iemenita, Abubakr Al Qirbi.
"Tem gente querendo criar confusão, inventar problemas que não existem", disse outro chanceler, o egípcio Ahmed Maher. "Eu aconselharia a ler todo o discurso, um discurso feito aos muçulmanos pedindo a eles que se empenhem e afirmem sua personalidade."
Syed Hamid disse que a imprensa estrangeira retirou os comentários de Mahathir de seu contexto, deixando de lado o ponto mais importante do discurso: que os muçulmanos deveriam fazer a paz, porque não vão vencer o conflito palestino pela violência.
"Não concordamos com atentados suicidas, e ele disse isso", afirmou o ministro malaio. "Lamento que ele tenha criado essa interpretação adversa", disse ele, acrescentando que o discurso criticava os muçulmanos por não usarem a cabeça, como fazem os judeus, para promover sua causa.A própria Malásia, que durante dois dias abriga a reunião dos 57 governantes dos países da Organização da Conferência Islâmica, também lamentou a polêmica, dizendo que os comentários de Mahathir foram retirados do contexto.